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Contextualização Histórica

As peregrinações a Santiago de Compostela têm origem no século VIII, quando foi encontrado, em Arcis Marmoricis — local onde hoje se ergue a cidade de Santiago de Compostela —, o túmulo do Apóstolo Santiago.

De acordo com fontes como o Códice Calixtino e a Legenda Áurea, Santiago terá estado na antiga Hispânia numa missão evangelizadora após a morte de Cristo. Não tendo obtido o êxito esperado, o apóstolo optou por regressar à Judeia, onde acabou decapitado por ordem de Herodes Agripa, tornando-se assim mártir da fé cristã. Segundo os mesmos textos, temendo represálias por parte dos judeus, dois dos seus discípulos terão colocado o corpo numa embarcação sem timão e entregue-a ao mar. O barco terá subido a costa portuguesa até alcançar o porto romano de Iria, na Gallaecia da época (atual Galiza), onde, depois de vários episódios miraculosos, o corpo foi finalmente depositado num sepulcro.

Só séculos depois, com a descoberta do túmulo e a sua validação pelo bispo de Iria, este achado ganharia peso decisivo no fortalecimento da reconquista cristã na Península Ibérica, transformando Santiago num símbolo da resistência ao domínio islâmico. Foi este contexto que impulsionou as primeiras peregrinações ao túmulo do apóstolo. Quando arrancou a construção da catedral, em 1078, Santiago de Compostela já era um dos grandes destinos de peregrinação da cristandade, e a própria peregrinação constituía o fenómeno religioso e cultural mais marcante da Europa medieval. Qualquer itinerário seguido pelos peregrinos — independentemente do ponto de partida — passava a ser considerado um Caminho de Santiago. Com o tempo, e para disciplinar essa diversidade de rotas, foram fixados sete Caminhos "oficiais" (com as respetivas variantes), entre eles o Caminho Português.

A partir do século XIV, o contexto político-religioso favoreceu um progressivo esquecimento desta tradição peregrinatória. Só no final do século XX os Caminhos voltariam a ganhar força, impulso que se associa, em parte, à visita do Papa João Paulo II em 1982. Já no ano seguinte, declarado Ano Santo, mais de 100 mil peregrinos chegaram a Santiago — número que quase triplicaria no Jubileu de 2010, com mais de 270 mil peregrinos registados. Desde então, os valores anuais têm-se mantido em patamares semelhantes, confirmando uma trajetória de crescimento sustentado dos Caminhos.

Esta retoma foi acompanhada de reconhecimento institucional: o Parlamento Europeu atribuiu aos Caminhos o título de Primeiro Itinerário Cultural Europeu, e a UNESCO classificou-os como Património da Humanidade — primeiro o Caminho Espanhol (1993), depois o Francês (1998), estando atualmente em avaliação a candidatura do Caminho Português. Neste enquadramento, as motivações dos peregrinos deixaram de ser exclusivamente religiosas. As estatísticas recentes mostram que a maioria percorre os Caminhos por razões culturais — muitas vezes conjugadas com motivações religiosas — às quais se soma ainda a componente turística.

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